
Aviso de Motim dos Velhos Marinheiros Loucos
Eu e o marinheiro Timóteo
Por estarmos descontentes
com o rumo sempre previsível
deste Navio cargueiro
aditamos neste mastro
aviso de motim
em plena segunda-feira:
Não mais mudaremos de prosa
para que sejamos aceitos!
Não falaremos mais alto
para que nos escutem o pleito!
Só seguiremos agora a bússola
Que trazemos guardada no peito!
E a quem interessar possa
à latitude de 38º 4´N, Lisboa
Macau 22º 27´N
Rio de Janeiro 22º 55´S
Tomaremos rum ao convés
convidamos quem quiser
mirar sentados à proa
contar com serenidade,
nuances das marés,
até ao anoitecer estrelas,
baleias, golfinhos,
e causos de marinheiros...
Ao Comando, não tomaremos de assalto
Pois a esta altura já estamos altos
E pouco nos interessa qualquer tipo de poder:
já velhos demais para chegarmos a destinos prontos,
os quais não são por nós escolhidos,
mas ainda meninos para o que é incerto!
Temos sorrisos pacíficos
em olhos atlânticos abertos
de tanto a mar estarmos
a-mar nos parece certo
Cansamos de levar tesouros
Que não nos fazem sentido
Dos pobres tirarmos o trigo
Aos ricos deixarmos o pão
De modo que mais cativante
É ficar por aí à deriva
Sentir o suave da brisa
Rodar feito russa roleta
O lastro e o timão...
Caso queiram nos prender
não ofereceremos resistência
e damos com precisão endereço
Estamos jogando truco
Na sala do Capitão
Aproveitando sua permanência
no bucho de um tubarão
Onde foi parar
Por pura divergência de opinião
sobre filosofia libertária
versus cargos do escalão
Caso não, em assembléia justa
Decidiremos nossa sorte:
Os que ainda precisam de destino
Que levantem a mão e partam
Os que só quiserem tomar vinho
nos encontrem no porão
Ali podemos fazer ata coletiva
Comprovando suicídio do finado
Que defendia o patrão.
“Atirou-se ao mar sem aviso
Por mero atraso do cargueiro”.
No simbólico caixão
uma placa emotiva:
“Por pensar só em dinheiro
estando o mar enternecido
lá por tantos de janeiro
Num pôr-do-sol no Brasil
Perdeu toda razão,
(Se alguma lhe restava!)
ao discutir filosofia
Tarde já partiu
Para a puta-que-o-pariu!
Ah! Fossem com ele,
todos os acionistas,
banqueiros e neoliberais
aí descansaríamos em paz
Só ouvindo blues e reggae!
Vão para o diabo que os carregue!”
E assim, libertos, zarparíamos,
Com certeza absoluta para lugar nenhum
E se vissem outros depois,
em Fragata, formaríamos marinha
sob o lema: a tua guerra não é a minha!
Que nos chamassem de piratas,
enquanto contássemos estrelas,
baleias, causos, golfinhos
Pouco importaria
Pois assim já o dissemos
de tanto a mar estarmos
a-mar nos pareceria certo
em noites de luar e rum...
melhor destino do que ser escravo
é não ter destino algum..
Assinado: Eu e o Timóteo, por enquanto. Aguardamos adesões!
P.S – Na assembléia, vence a maioria simples só porque é simples mesmo.
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