sábado, 24 de dezembro de 2011

Crônica Natal e Ano novo Pibloktok: O Casamento de Dona Luíza e Seo Pedro




Meu bairro mudou, eu sei, e agora é um pouco tarde para sair com uma tigela de bolinhos de chuva e tentar entrar em enormes edifícios e apartamentos e dizer aos novos moradores: “Olá! Moro aqui há mais de quarenta anos. Sejam bem vindos!”. Antigamente, a gente conhecia todo mundo na região. Quem era quem: o farmacêutico, o tímido, a solteirona, o perna-de-pau, o bom de bola, o um pouco mais rico, aquele um pouco mais pobre; nós sabíamos sobre cada um e até sobre quem eram os “esquisitos”. E olha que eu sempre me incluía, intuitivamente, entre os “esquisitos”. É que eu gostava de ler, não falava muito, então, digamos que eu passava pelo crivo por pouco, porque jogava futebol e todo mundo sabia que eu era ponta-direita e filho do farmacêutico, o que jogava bem futebol.
Mas, resumindo, somente o fato de gostar de ler, já podia nos incluir no rol dos esquisitos, porque, afinal, todos sabem, não fomos feitos para a leitura neste país, mas para relinchar pelos campos e ruminar cordialmente o sol de cada dia de forma pacata, ordeira, metódica e ai de quem não! Hoje não é muito diferente, mas existe uma grande ironia em tudo isto. Julgo que os “esquisitos” de antigamente foram substituídos por “novos esquisitos”, os quais agora são em maioria. E nós, que éramos considerados esquisitos, de tão esquisito que ficou o mundo, acabamos nos julgando normais. Por exemplo: ainda não estou acostumado a ver as pessoas saírem de suas casas, cercadas de cercas elétricas, bunkers de guerra, como se isto fosse normal. Sinto-me em meio a um campo de concentração, mas a maioria acha normal, como se a sociedade devesse ser mesmo assim, o que não aceito (e vou colocar aqui em casa também, mas continuo não achando normal!). Como “antena da raça”, segundo Pound, trago sem querer isto para o meu inconsciente: o medo gera o medo! Outro exemplo. Às vezes, forçosamente, entro em um Shopping. Para todos, coisa normal. Para mim não: tenho medo! Medo daquela gente toda comprando tudo e de seus estilos de vida. Passam umas ao lado das outras, mas não sabem quem são, ou pior, sabem quem são sim, exatamente iguais. Bom, ali não tem um sapateiro, porque já não se consertam sapatos. Compram-se novos. Os bons e velhos barbeiros foram substituídos por naves espaciais dirigidas por extraterrestres. Tenho medo das redes de cinemas norte-americanas e suas pipocas gigantes a preços extorsivos, com copos gigantes e garotos balofos com a boca entupida de hamburguers, sob o olhar complacente dos pais; medo das salas “cleans” de espera de alguma coisa que nunca vem e temo que seja a felicidade que eles esperam; dos homens parecidos com agentes do FBI, de preto, com “walk talk” e toda esta “segurança” para o medo de tudo. E sentar em uma daquelas “mesinhas” brancas, apertadas, enlatadas, e ser servido por um adolescente explorado por uma rede destas de trabalho escravo, e ser servido por um escravo-criança, e todos acharem normal, dá medo também. E o que eles servem que eu não sei de onde vem, ou sei sim, dos animais confinados e criados com hormônios sem ver a luz do sol, me dá medo. E aquela luz sintética, clima ameno, sem conseguir enxergar nem um só ser humano sem o rótulo de consumidor, faz-me suar frio. Então, o Natal, especialmente para mim, é algo difícil de entender. Por que devemos escolher um dia especial para sermos “bonzinhos”? Para suportar os parentes? Para fingir que existe algo que não existe em nosso dia a dia? Aqui, nós matávamos um porco e o pai dizia: leve um pedaço para os fulanos e para os cicranos. E pasmem: não era natal! Era qualquer dia em que se adquire alimento e se diz a si mesmo: devemos dividir as coisas com os outros! Meu pai (quando estava são, é óbvio), ensinou-me muitas coisas. Fazia nossos brinquedos artesanalmente, tinha habilidade em lidar com a madeira: saia um carrinho, um “revolvinho” com mira de cano velho e tudo. Hoje, parece que, segundo experiência recente proporcionada pela minha sobrinha de sete aninhos que empurrou-me para uma destas, sei lá, sala de diversões eletrônicas, a moda é colocar uma fichinha em uma máquina e testar a habilidade em dar um maior número de porretadas em cães, gatos, duendes, extraterrestres, etc, que colocam suas cabeças mecanicamente para fora de um tubo. E eu pensei: quem será que inventou um brinquedo como esse? Evidentemente um “esquisitão”. A maioria deles é desenhado para matar alguma coisa e, quando não, para correr velozmente com alguma coisa. O “futurismo” de Tommaso Marinetti voltou e eu não sabia? Sim, a velocidade é mais importante que museus e bibliotecas: queimemos as todas!
Bom, concluo que os “esquisitos” tomaram conta de grande parte mundo. São eles que mandam agora. Fazem-me crer que não refletem sobre si mesmos e sobre suas vidas. Não se sabe de onde vieram e eles também não fazem questão de explicar, com seus fones de ouvido, fechados em seus muros, com suas estranhas concepções políticas de liberdade e democracia, que passam longe de nossa pequena associação de moradores (será que eles tem associação de algum coisa, além das dos condomínios, consumidores, negócios e amizades formais de clubes fechados?). Vez ou outra, quando um dos seus são atingidos pela fatalidade da violência, os vemos em passeatas momentâneas, que logo são esquecidas. A televisão os filma, eles choram, eles falam bem, e nos dão a entender que são pessoas como nós que sentem e amam. Eis a sociedade soluçando...pelos seus, só pelos seus, e de suas classes, e momentaneamente, e só. E gritam dos altos dos seus edifícios: mais guaritas, mais segurança, mais câmeras, mais polícia, mais arame farpado, mais muros, mais individualidade, mais comércio!
Acabo concluindo que o “saudosismo” não nos trará aquele velho mundo novamente. Mas não deixo nunca de acreditar que o Brasil sempre foi simples, que o Brasil sempre teve uma alma rural que tentaram a todo custo sufocar apesar de não existir nenhum mal nisso, quer dizer, em ser de fato brasileiro. Podemos aproveitar todos os avanços tecnológicos que existem, sem sermos menos humanos por isso. Então eu aproveito aquele velho mundo do jeito que posso, enquanto a mudança definitiva não vem, já que o que virá, não sei, mas não deve ser boa coisa como andamos notando por aí, agora não só em nosso país, como nos ditos “países civilizados”. E não vivo assim por mero capricho mas por uma questão de sanidade mental: um dia descobriremos que as grandes metrópoles no fazem mal, não tanto por elas mesmas, mas pelo modo como foram concebidas.
Ontem, uma antiga vizinha minha, aqui do bairro, casou-se e eu quis dar um presente. Estava em um daqueles dias equilibrados, porque às vezes os dias desequilibram-me. Por sentir de forma tão intensa os problemas do mundo eu os internalizo e agora, segundo orientações, digamos “místicas-médicas”, devo esquecer momentaneamente as esquálidas crianças africanas/brasileiras/indianas e por aí vai, morrendo de fome, minha impotência diante da desigualdade, meu sentimento de culpa por não poder fazer mais do que posso, a dor de ver um país dissolver-se, as cercas eletrificadas, os bunkers, as mentiras dos noticiários, pessoas vendendo tudo todo dia pelo telefone, pelos cartazes, no ônibus, em toda parte: vendendo tudo e a si mesmas! Eu não disse que eu era esquisito: acho a humanidade doente e fico doente com isso!
Bom, mas eu fui lá, com minha “máquina”, dar meu presente aos “nortistas”, meus antigos vizinhos, há mais de quarenta anos. Eles são evangélicos, como poderiam ser de qualquer outra religião, para mim não importa. Eu respeito todas as religiões, assim como tenho minhas críticas com relação a elas, o que não me impede de entender o que significa a busca do eterno para as pessoas. E o eterno...eu respeito ternamente. Dona Luíza tem setenta. Seo Pedro, sessenta e seis. Resolveram unirem-se em matrimônio porque, segundo eles, Deus assim o teria ordenado. Entendo pouco de Deus, não sou religioso, mas imagino que fora eu teólogo, pastor, padre, pai de santo, monge budista, também teria abençoado semelhante união. Os nortistas colocam suas cadeiras em frente as suas casas e durante a vida inteira olham para o mundo que passa. De forma humilde, com gestos simples como estes, os “nortistas” (do norte do Paraná) mudaram em muito o que nós curitibanos somos. O casamento de Dona Luiza surpreendeu-me e não pude deixar de fazer um paralelo irônico com um destes “casamentos reais”, cafonas e extemporâneos, que existem por aí neste mundo cada vez “mais esquisito”.
Acho as vezes que não deveria me preocupar tanto com tudo isso. A humanidade tem o que merece. Não vamos mudá-la sozinhos, mas a partir do momento em que a maioria deseje mudá-la. Acreditar na vida e no amor? Ah! Se minhas pautas tivessem sido sempre assim...eu não teria ficado tão estressado. Sempre mais saudável do que entrevistar um político corrupto e safado mentindo em sua frente e não poder esmurrá-lo.
Num dia equilibrado entre o sol escaldante e as esporádicas sombras que restam de árvores-aves, fui lá...e fui feliz! E sentir-se feliz é um bom começo.
Aos amigos e amigas do Pibloktok, um bom natal, mas não esse que anda por aí. Um outro, talvez. Àquele de, no dia a dia, acreditar com fé no amor, na vida e no recomeçar sempre, apesar de tudo. Assim como os “nortistas”, Dona Luíza e o Seo Pedro. O Hino Escolhido por eles: “O Dia Feliz”. Não poderia ser outro!

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Curitiba, Paraná, Brazil
Jornalista, escritor, poeta, Diretor de Comunicação do Instituto Reage Brasil (IRBRA)