quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Blade Runner e o Roubo de Deus



Roy agarra-se a uma pomba branca representação do espírito santo e da vida e fala calmamente "Eu vi coisas que vocês não acreditariam (...) Todos esses momentos se perderão no tempo como lágrimas na chuva. ...tempo de morrer" e solta a pomba que voa para um céu azul.

Blade Runner é uma história de um detetive mercenário, que se passa numa Los Angeles em 2019, transformada em uma caótica megalópole. O filme foi baseado no livro Do Androids Dream of Eletric Sheep de Phillip K. Dick, 1968. O lendário autor de ficção científica escreveu centenas de contos entre as décadas de 50 e 60, porém nunca foi bem sucedido comercialmente. Embora tenha falecido antes da conclusão do filme, o primeiro baseado em suas histórias, sua imaginação fértil inspirou gerações de escritores e diretores, levantando questões que permanecem atuais, como o reconheceu na história de Dick, um potencial cinematográfico para o romance futurista. Dez anos se passaram e Scorsese, com vários projetos em andamento, perdeu a oportunidade de trabalhar sua idéia e Brian Kelly adquiriu os direitos do livro que já despertara interesse de vários roteiristas. Michael Deeley assumiu a produção. O primeiro roteiro foi escrito por Hampton Francher e depois reescrito por David Peoples. Dois anos de intensas discussões foi o tempo que Hollywood levou para bancar o projeto ousado e caro. O diretor inglês Ridley Scott que havia chamado atenção com o filme Alien - O 80 passageiro, um mega sucesso, foi convidado a assumir a direção. Seria o seu 1º filme rodado em Hollywood. Scott era reconhecido na Europa como premiadíssimo diretor de filmes publicitários, seriados de TV e já havia dirigido 2 longas metragem( Seu 1º filme foi Os Duelistas, 1977). Resolveu encarar o desafio de filmar nos EUA. Algumas modificações foram feitas no roteiro original. O ano da história foi mudado de 1992 para 2019, para que se distanciasse mais da data atual.

Apesar do detetive ter sido baseado no personagem Philip Malowe do escritor Raymond Chandler, o termo detetive foi mudado para blade runner (caçador de andróide), inspirado no título de um livro de William Burroghs. Rick Deckard foi o nome dado ao detetive, digo, blade runner. O astro convidado para viver a personagem foi Harrison Ford. Ridley Scott viveu apaixonadamente o projeto. Sendo além de diretor, fotógrafo e diretor de arte, quis imprimir sua visão estética, com uma determinação que assustou até os produtores.

"...No excesso de identificação com o arquétipo do Criador, no enredo do romance futurista em questão, o homem tenta criar sua cópia para suprir suas faltas ( Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, Adão o homem, Gênesis 1.26-2.17), os andróides ou replicantes. Criaturas feitas pela engenharia genética para se tornarem escravos do homem nas colonizações de outros planetas. Quase perfeitos e criados para fins específicos, estes replicantes mesmo com apenas 4 anos de vida criam em si desejos e inquietudes típicas dos seres humanos e com aptidões, força física, raciocínio, inteligência superiores. Ingenuamente o projetista dessas criaturas, intuiu que não implantando memória histórica e afetiva ( consciência) no cérebro dessas "entidades orgânicas" seria mais fácil controlá-Ios. Foi um grande engano, pois o pensamento, a observação, a inteligência, fizeram aflorar emoções próprias e bastante humanas: ódio, amor, medo e inveja. Eles ansiavam a liberdade de viver e tinham efetivamente pouco a perder, já eram escravos. Houve então uma grande rebelião de replicantes. Eles tornaram-se uma ameaça aos humanos e foram banidos da Terra (como Adão e Eva foram expulsos do paraíso e viram-se forçados a uma nova auto percepção a fim de procurarem uma nova compreensão de si mesmos e sustentar-se por seus próprios esforços) para, um planeta colônia, Orion. Alguns permaneceram na Terra e foram caçados exaustivamente. A nossa história começa com a descoberta de 6 replicantes, modelo Nexus 6, que sequestram uma nave em Orion e voltam a Terra. Infiltrados nesta grande metrópole, surge em cena Rick Deckard, um caçador de andróides, mercenário que já havia se aposentado do ofício. Ele é intimado por Bryant ( M. Emmet Walsh), o chefe de polícia, que não Ihe dá nenhuma chance de recusa à missão. Fica bastante claro que Bryant o tem nas mãos, onde cria-se neste momento uma grande questão durante toda a história, Deckard era também um replicante
A essência da identidade é a memória e a memória se tem, com a história da vida. Era exatamente o que eles não tinham e queriam a qualquer custo, mais vida. Estas questões podem ser filosóficas, para qualquer ser humano: quanto tempo viverei, como viver com o medo e a certeza da finitude? Como viver com a angústia, sem defesas, sem auxílio, sem amparo, a espera de sabe-se lá o que? O que é a angustia, senão esse sentimento em nós, como ou sem razão, da possibilidade imediata do pior? O medo da morte. Não existe vida sem morte. Não existe vida sem angústia. Mas na vida há a possibilidade de tudo..."

Os replicantes também vão atrás das respostas. Mas pra eles existe um Criador de carne e osso que deve ter, hipoteticamente, uma resposta ou solução. Tyrel ( Joe Turkel) é esse personagem no filme. Deckard caça os andróides para eliminá-Ios e os andróides buscam mais vida, em busca de uma identificação.

Fonte: http://www.mitologica.com.br/joomla/index.php?option=com_content&task=view&id=76

Sonhar aos quarenta e seis do segundo tempo

A reflexão sobre Blade Runner, à posteriori, em data onde avanço no tempo e o tempo avança em mim. Um suposto poeta vive de detalhes, coisas aparentemente insignificantes deixadas pelos olhares humanos. Da série de Blade Runner, Solaris, Koyaanisqats e outros depois chamados "cults", mas quando passavam aqui, em Curitiba, fora do circuito cultural, nos cinemas, Ritz, Luz, Groff, as salas desertas. Sempre desertas. Além de mim, mais uns dois ou três. E naquela época eu já me perguntava: bom, não sei bem o que se fala de nós curitibanos...sobre sermos cultos. A exposição de Dali foi um fracasso aqui. Nossos governantes, invariavelmente, são uns tapados e apostam na maioria tapada para elegê-los. E els elegem, como de resto, em todo nosso país. Somos sumariamente subestimados. Bom, se vc começar a falar algo assim por aqui, um pouco diferente do senso comum, alguém vai bocejar na mesa, isso se deixarem falar, somos incômodos, pessimistas e por aí vai...Então, o nossa "música Axé", o nosso ópio, somos nós mesmos. Eu sempre considerei a humanidade muito burra, a começar pelo meu próprio exemplo (rsrs!). Ayrton Senna morreu na mesma data de Mário Quintana. Eu via no jornal televisivo a overdose de ufanismo sobre uma pessoa que se enfia num carro a 300 km por hora...e lá ao final, uma mensagem: "Morreu o poeta Mário Quintana". E um poema do sujeito. E querem que eu teça loas a uma humanidade dessa? Bom...temos que escolher nossos prazeres, colocá-los em patamares diferentes. Por exemplo: um corredor de biga em um pedestal maior do que um filósofo não teria razão na Grécia antiga. Evolução? E aí a gente comprava briga por isso, porque você não pode ser você, ter suas próprias idéias porque um bando de idiotas (e eles sempre andam em bando podem ter certeza!) não admitem que você não pense como eles. Que diga: não, eu não concordo, é um direito meu! Então você é sumariamente escorraçado porque é "contra o Brasil", é "ignorante" por pensar assim,patati,patata e tá, eu acho que a idéia de um cara que se enfia num carro a 300 Km por hora...gastando combustível fóssil, poluindo o planeta, colocando em risco a sua vida e a dos outros...sem nenhum motivo melhor do que chegar primeiro lugar...soa-me um tanto idiota. Podia fazer algo melhor de sua vida, se quer arriscá-la, como ir ao Haiti levar comida e água para os necessitados. E ficar aí enfiado em uma nave espacial, olhando a terra lá de cima. Uma vez na história tá bom, agora ficar lá enfiado seis meses, um ano. Pô! Não temos problemas suficientes aqui para serem resolvidos? Em uma época onde importaram o conceito momentâneo da física, aquele da "teoria da relatividade", para todas as áreas do conhecimento humano e das relações sociais, lá vem aquele sujeito na última fila afimando: "Isso é relativo! Você não pode impor sua opinião sobre os demais, não pode querer que todos tenham está opção!". E o cara, apoiado por todos, é o baluarte da democracia! UÉ! È Claro que não tenho a mínima pretensão de que todo mundo pense como eu...mas tenho o direito de poder dizer o que acho! E se acho que uma coisa é idiota...não quero nem saber se o resto do mundo acha ser a oitava maraviha do mundo. Mas não existe espaço para isso: é ao contrário! A sociedade não respeita quem não quer seguir o rebanho! São cruéis! Banem! Exílam...sem sequer imaginar que o exílio é ótimo para quem gosta de pensar e existir por seus próprios méritos e pensamentos. Quem exila quem?
Bom...Aí vieram com aquele papo repetido interminavelmente de que somos "exigentes". Acho que não somos exigentes porra nenhuma! Li o suicidado da sociedade de Antonin: ãs mesas dos bares, estábulos acadêmicos, rodinhas "sociais", de que somos o supra sumo cultural do Brasil, que quando lançam algum produto experimentam aqui, porque na verdade somos Artaud e Quintana em Party "vocês são feios e burros e não morrem nunca!", kakakak! O Humor é a vitória do ego sobre o princípio da realidade disse Freud. Esta cidade deixou-me doente, além da carga genética hereditária já propensa à. Bem sei que me faltam pedaços da memória mas sempre resta o sentimento profundo que de mim, muito roubaram: a família, o estado, a igreja, as ideologias, a cidade...e por aí vái! Mas de alguma forma, a busca pela vida, apesar de deixar marcas, tornou-me um sobrevivente, um herói ou sei lá o quê. Pelo menos assim imagino-me, afinal estou aqui e estou lutando e não desisti de mudar a mim mesmo e ao mundo, de alegrar a vida das pessoas...apesar de, no fundo, no fundo, considerar-me um grande chato, como todo bom curitibano. E daí? Tenho até medo do Face: parece que tenho aí uns 600 amigos. Ums sentimento estranho, ainda que virtual. Quem são eles? Kakakaka! Nunca me imaginei em patotas, em turmas, no máximo em algum grupo seleto de auto-idiotas que se suportam e aturam, pois vez ou outra verte uma centelha de genialidade. Mas agora, agora que aprendi a viver em mim mesmo, construir minhas próprias piadas, não esperar nada daqueles que me rodeiam e até aceitar a decepção de não ser o que de mim espero, ou que outros imaginam, eu é que não quero mais sair daqui. Conheci pessoas capazes de irem além de si mesmas e debruçarem seus olhares sobre os outros atentas, amáveis, doces, pacientes, inteligentes... as quais jamais imaginem existissem. Não muitos...mas algumas centenas as quais admiro. E devem exister milhares a mais, porque tudo está mudando e fico feliz em estar podendo ver isso. Aqui eu li, vivi uma vida solitária mesmo acompanhado, cometi erros, frequentei museus, teatros, cinemas, manicômios, médicos, praças, alambrados de futebol, intermináveis reuniões de partidos que não decidiram nada ou mudaram depois o que foi decidido nas reuniões, pessoas burras, egoístas, débeis mentais de toda espécia (Ah! Claro que sempre me incluo, né? Vício da ética protestante hereditária). A única diferença é que já não deixo mais que roubem um milímetro de minha vida...Permaneço ali, como sempre permaneci, observando o estranho gesticular, ouvindo de canto de ouvido as conversas chatas, fugindo dos conhecidos que não quero conhecer e até de mim mesmo, quando não me suporto.
Em meio a tudo isto, num caminhar por uma praia deserta, em frente a uma igreja, no dia do meu aniversário...lá está ela, uma pomba ladra beliscando um pedaço de Deus...e aí, ouvindo alguma música indígena norte-americana ou brasileira ou alguma outra de algum cantor ou cantora daqui e dali que ninguém conhece, um Raimundo Rolim, uma Eliane Bastos, um Sidail César, um Ronald Magalhães...surge uma felicidade estranha. Reluto em pegar a caneta e escrever algo. Rejeito minha suposta aptidão, como quem a considera um pecado, uma maldição...mas ela sempre me seduz ao final, a desgraçada. É estranho a arte oferecer-se a quem a rejeita e a felicidade não procurada...aparecer de repente.
Queridos amigos e amigas, não sei se os mereço e não sei se vocês merecem algo de mim. É bom que a dúvida permaneça, pois com ela permanece o respeito. Vamos supor que caso fosse algum deus...jamais deixaria que os homens tivessem certeza de que eu existisse. A certeza estraga tudo! O fóton...Ah! O fóton, aqui e ali, incerto por princípio: a matéria de qual todos somos feitos apesar de não fazermos a mínima idéia de como ela aparece e some. A dor de ser...que torna a vida alegre!
Mas que nos levaram um pedaço do enterno...nos levaram. Afinal, porque continuamos com esta sede de infinito?
Obrigado a todos vocês diferentes...que lutam por um mundo diferente, mesmo que não seja exatamente o qual imagino...e é bom que não seja.


O Roubo de Deus


Ao som da ladainha em latim
no alto da torre sacra
uma pomba beliscou
um pedaço de Deus
Com o além no bico
triscou o azul do céu
para beijar o filho
deixando o padre mudo
preenchendo o nada de tudo

Sangrando gotas eternas
um naco do infinito
ainda permanece no bico
Para quem duvida da vida
um milagre a cada manhã:
a dor de ser alegra o canto
mesmo que falte um pedaço
do eterno que nos levaram!

Shangri-Lá - Litoral Paranaense
31-01-2012

domingo, 15 de janeiro de 2012

Poesia - Aviso de Motim dos Velhos Marinheiros Loucos



Aviso de Motim dos Velhos Marinheiros Loucos

Eu e o marinheiro Timóteo
Por estarmos descontentes
com o rumo sempre previsível
deste Navio cargueiro
aditamos neste mastro
aviso de motim
em plena segunda-feira:
Não mais mudaremos de prosa
para que sejamos aceitos!
Não falaremos mais alto
para que nos escutem o pleito!
Só seguiremos agora a bússola
Que trazemos guardada no peito!

E a quem interessar possa
à latitude de 38º 4´N, Lisboa
Macau 22º 27´N
Rio de Janeiro 22º 55´S
Tomaremos rum ao convés
convidamos quem quiser
mirar sentados à proa
contar com serenidade,
nuances das marés,
até ao anoitecer estrelas,
baleias, golfinhos,
e causos de marinheiros...

Ao Comando, não tomaremos de assalto
Pois a esta altura já estamos altos
E pouco nos interessa qualquer tipo de poder:
já velhos demais para chegarmos a destinos prontos,
os quais não são por nós escolhidos,
mas ainda meninos para o que é incerto!
Temos sorrisos pacíficos
em olhos atlânticos abertos
de tanto a mar estarmos
a-mar nos parece certo
Cansamos de levar tesouros
Que não nos fazem sentido
Dos pobres tirarmos o trigo
Aos ricos deixarmos o pão
De modo que mais cativante
É ficar por aí à deriva
Sentir o suave da brisa
Rodar feito russa roleta
O lastro e o timão...


Caso queiram nos prender
não ofereceremos resistência
e damos com precisão endereço
Estamos jogando truco
Na sala do Capitão
Aproveitando sua permanência
no bucho de um tubarão
Onde foi parar
Por pura divergência de opinião
sobre filosofia libertária
versus cargos do escalão


Caso não, em assembléia justa
Decidiremos nossa sorte:
Os que ainda precisam de destino
Que levantem a mão e partam
Os que só quiserem tomar vinho
nos encontrem no porão
Ali podemos fazer ata coletiva
Comprovando suicídio do finado
Que defendia o patrão.
“Atirou-se ao mar sem aviso
Por mero atraso do cargueiro”.
No simbólico caixão
uma placa emotiva:
“Por pensar só em dinheiro
estando o mar enternecido
lá por tantos de janeiro
Num pôr-do-sol no Brasil
Perdeu toda razão,
(Se alguma lhe restava!)
ao discutir filosofia
Tarde já partiu
Para a puta-que-o-pariu!
Ah! Fossem com ele,
todos os acionistas,
banqueiros e neoliberais
aí descansaríamos em paz
Só ouvindo blues e reggae!
Vão para o diabo que os carregue!”

E assim, libertos, zarparíamos,
Com certeza absoluta para lugar nenhum
E se vissem outros depois,
em Fragata, formaríamos marinha
sob o lema: a tua guerra não é a minha!
Que nos chamassem de piratas,
enquanto contássemos estrelas,
baleias, causos, golfinhos
Pouco importaria
Pois assim já o dissemos
de tanto a mar estarmos
a-mar nos pareceria certo
em noites de luar e rum...
melhor destino do que ser escravo
é não ter destino algum..



Assinado: Eu e o Timóteo, por enquanto. Aguardamos adesões!

P.S – Na assembléia, vence a maioria simples só porque é simples mesmo.

Poesia - Catavento Dialético



Catavento Dialético

Plangente garoa à pele-domingo
pólen de estrelas distantes
formação do espaço denso
flores no universo
Gorgeio pássaro noturno
Lento caminhar do tempo
Roupa de mãe dobrada à cama
Fumaça do cigarro evapora
à liberdade do vento
construindo formas
Catavento que move
círculo da história:
pensamentos confrontam
pensamentos conformam...

Poesia: Teatro Inverso




Teatro Inverso
“Quando começa o cinema...termina a vida!”
Wim Wenders em O Estado das Coisas


Aplausos, Humanos, aplausos!
No teatro da vida
A comédia é a platéia
O drama, os atores
assistindo pessoas
que não lembram do script
(incapazes de improvisar
sendo apenas elas mesmas!)
O amor finalmente,
Só quando a encenação termina
Atrás da cortina.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Crônica Natal e Ano novo Pibloktok: O Casamento de Dona Luíza e Seo Pedro




Meu bairro mudou, eu sei, e agora é um pouco tarde para sair com uma tigela de bolinhos de chuva e tentar entrar em enormes edifícios e apartamentos e dizer aos novos moradores: “Olá! Moro aqui há mais de quarenta anos. Sejam bem vindos!”. Antigamente, a gente conhecia todo mundo na região. Quem era quem: o farmacêutico, o tímido, a solteirona, o perna-de-pau, o bom de bola, o um pouco mais rico, aquele um pouco mais pobre; nós sabíamos sobre cada um e até sobre quem eram os “esquisitos”. E olha que eu sempre me incluía, intuitivamente, entre os “esquisitos”. É que eu gostava de ler, não falava muito, então, digamos que eu passava pelo crivo por pouco, porque jogava futebol e todo mundo sabia que eu era ponta-direita e filho do farmacêutico, o que jogava bem futebol.
Mas, resumindo, somente o fato de gostar de ler, já podia nos incluir no rol dos esquisitos, porque, afinal, todos sabem, não fomos feitos para a leitura neste país, mas para relinchar pelos campos e ruminar cordialmente o sol de cada dia de forma pacata, ordeira, metódica e ai de quem não! Hoje não é muito diferente, mas existe uma grande ironia em tudo isto. Julgo que os “esquisitos” de antigamente foram substituídos por “novos esquisitos”, os quais agora são em maioria. E nós, que éramos considerados esquisitos, de tão esquisito que ficou o mundo, acabamos nos julgando normais. Por exemplo: ainda não estou acostumado a ver as pessoas saírem de suas casas, cercadas de cercas elétricas, bunkers de guerra, como se isto fosse normal. Sinto-me em meio a um campo de concentração, mas a maioria acha normal, como se a sociedade devesse ser mesmo assim, o que não aceito (e vou colocar aqui em casa também, mas continuo não achando normal!). Como “antena da raça”, segundo Pound, trago sem querer isto para o meu inconsciente: o medo gera o medo! Outro exemplo. Às vezes, forçosamente, entro em um Shopping. Para todos, coisa normal. Para mim não: tenho medo! Medo daquela gente toda comprando tudo e de seus estilos de vida. Passam umas ao lado das outras, mas não sabem quem são, ou pior, sabem quem são sim, exatamente iguais. Bom, ali não tem um sapateiro, porque já não se consertam sapatos. Compram-se novos. Os bons e velhos barbeiros foram substituídos por naves espaciais dirigidas por extraterrestres. Tenho medo das redes de cinemas norte-americanas e suas pipocas gigantes a preços extorsivos, com copos gigantes e garotos balofos com a boca entupida de hamburguers, sob o olhar complacente dos pais; medo das salas “cleans” de espera de alguma coisa que nunca vem e temo que seja a felicidade que eles esperam; dos homens parecidos com agentes do FBI, de preto, com “walk talk” e toda esta “segurança” para o medo de tudo. E sentar em uma daquelas “mesinhas” brancas, apertadas, enlatadas, e ser servido por um adolescente explorado por uma rede destas de trabalho escravo, e ser servido por um escravo-criança, e todos acharem normal, dá medo também. E o que eles servem que eu não sei de onde vem, ou sei sim, dos animais confinados e criados com hormônios sem ver a luz do sol, me dá medo. E aquela luz sintética, clima ameno, sem conseguir enxergar nem um só ser humano sem o rótulo de consumidor, faz-me suar frio. Então, o Natal, especialmente para mim, é algo difícil de entender. Por que devemos escolher um dia especial para sermos “bonzinhos”? Para suportar os parentes? Para fingir que existe algo que não existe em nosso dia a dia? Aqui, nós matávamos um porco e o pai dizia: leve um pedaço para os fulanos e para os cicranos. E pasmem: não era natal! Era qualquer dia em que se adquire alimento e se diz a si mesmo: devemos dividir as coisas com os outros! Meu pai (quando estava são, é óbvio), ensinou-me muitas coisas. Fazia nossos brinquedos artesanalmente, tinha habilidade em lidar com a madeira: saia um carrinho, um “revolvinho” com mira de cano velho e tudo. Hoje, parece que, segundo experiência recente proporcionada pela minha sobrinha de sete aninhos que empurrou-me para uma destas, sei lá, sala de diversões eletrônicas, a moda é colocar uma fichinha em uma máquina e testar a habilidade em dar um maior número de porretadas em cães, gatos, duendes, extraterrestres, etc, que colocam suas cabeças mecanicamente para fora de um tubo. E eu pensei: quem será que inventou um brinquedo como esse? Evidentemente um “esquisitão”. A maioria deles é desenhado para matar alguma coisa e, quando não, para correr velozmente com alguma coisa. O “futurismo” de Tommaso Marinetti voltou e eu não sabia? Sim, a velocidade é mais importante que museus e bibliotecas: queimemos as todas!
Bom, concluo que os “esquisitos” tomaram conta de grande parte mundo. São eles que mandam agora. Fazem-me crer que não refletem sobre si mesmos e sobre suas vidas. Não se sabe de onde vieram e eles também não fazem questão de explicar, com seus fones de ouvido, fechados em seus muros, com suas estranhas concepções políticas de liberdade e democracia, que passam longe de nossa pequena associação de moradores (será que eles tem associação de algum coisa, além das dos condomínios, consumidores, negócios e amizades formais de clubes fechados?). Vez ou outra, quando um dos seus são atingidos pela fatalidade da violência, os vemos em passeatas momentâneas, que logo são esquecidas. A televisão os filma, eles choram, eles falam bem, e nos dão a entender que são pessoas como nós que sentem e amam. Eis a sociedade soluçando...pelos seus, só pelos seus, e de suas classes, e momentaneamente, e só. E gritam dos altos dos seus edifícios: mais guaritas, mais segurança, mais câmeras, mais polícia, mais arame farpado, mais muros, mais individualidade, mais comércio!
Acabo concluindo que o “saudosismo” não nos trará aquele velho mundo novamente. Mas não deixo nunca de acreditar que o Brasil sempre foi simples, que o Brasil sempre teve uma alma rural que tentaram a todo custo sufocar apesar de não existir nenhum mal nisso, quer dizer, em ser de fato brasileiro. Podemos aproveitar todos os avanços tecnológicos que existem, sem sermos menos humanos por isso. Então eu aproveito aquele velho mundo do jeito que posso, enquanto a mudança definitiva não vem, já que o que virá, não sei, mas não deve ser boa coisa como andamos notando por aí, agora não só em nosso país, como nos ditos “países civilizados”. E não vivo assim por mero capricho mas por uma questão de sanidade mental: um dia descobriremos que as grandes metrópoles no fazem mal, não tanto por elas mesmas, mas pelo modo como foram concebidas.
Ontem, uma antiga vizinha minha, aqui do bairro, casou-se e eu quis dar um presente. Estava em um daqueles dias equilibrados, porque às vezes os dias desequilibram-me. Por sentir de forma tão intensa os problemas do mundo eu os internalizo e agora, segundo orientações, digamos “místicas-médicas”, devo esquecer momentaneamente as esquálidas crianças africanas/brasileiras/indianas e por aí vai, morrendo de fome, minha impotência diante da desigualdade, meu sentimento de culpa por não poder fazer mais do que posso, a dor de ver um país dissolver-se, as cercas eletrificadas, os bunkers, as mentiras dos noticiários, pessoas vendendo tudo todo dia pelo telefone, pelos cartazes, no ônibus, em toda parte: vendendo tudo e a si mesmas! Eu não disse que eu era esquisito: acho a humanidade doente e fico doente com isso!
Bom, mas eu fui lá, com minha “máquina”, dar meu presente aos “nortistas”, meus antigos vizinhos, há mais de quarenta anos. Eles são evangélicos, como poderiam ser de qualquer outra religião, para mim não importa. Eu respeito todas as religiões, assim como tenho minhas críticas com relação a elas, o que não me impede de entender o que significa a busca do eterno para as pessoas. E o eterno...eu respeito ternamente. Dona Luíza tem setenta. Seo Pedro, sessenta e seis. Resolveram unirem-se em matrimônio porque, segundo eles, Deus assim o teria ordenado. Entendo pouco de Deus, não sou religioso, mas imagino que fora eu teólogo, pastor, padre, pai de santo, monge budista, também teria abençoado semelhante união. Os nortistas colocam suas cadeiras em frente as suas casas e durante a vida inteira olham para o mundo que passa. De forma humilde, com gestos simples como estes, os “nortistas” (do norte do Paraná) mudaram em muito o que nós curitibanos somos. O casamento de Dona Luiza surpreendeu-me e não pude deixar de fazer um paralelo irônico com um destes “casamentos reais”, cafonas e extemporâneos, que existem por aí neste mundo cada vez “mais esquisito”.
Acho as vezes que não deveria me preocupar tanto com tudo isso. A humanidade tem o que merece. Não vamos mudá-la sozinhos, mas a partir do momento em que a maioria deseje mudá-la. Acreditar na vida e no amor? Ah! Se minhas pautas tivessem sido sempre assim...eu não teria ficado tão estressado. Sempre mais saudável do que entrevistar um político corrupto e safado mentindo em sua frente e não poder esmurrá-lo.
Num dia equilibrado entre o sol escaldante e as esporádicas sombras que restam de árvores-aves, fui lá...e fui feliz! E sentir-se feliz é um bom começo.
Aos amigos e amigas do Pibloktok, um bom natal, mas não esse que anda por aí. Um outro, talvez. Àquele de, no dia a dia, acreditar com fé no amor, na vida e no recomeçar sempre, apesar de tudo. Assim como os “nortistas”, Dona Luíza e o Seo Pedro. O Hino Escolhido por eles: “O Dia Feliz”. Não poderia ser outro!

sábado, 17 de dezembro de 2011

Música Pibloktok - Cesária Évora - Sodade (Live)

Cesária Évora (1941-2011)
Faleceu aos 70 anos a embaixadora da música caboverdeana, que alcançou o estrelato internacional nos últimos 25 anos de vida. Cesária Évora ficou conhecida como "a diva dos pés descalços", o nome do álbum gravado em 1988 em Paris e cujo sucesso a levou depois aos palcos de todo o mundo.


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Jornalista, escritor, poeta, Diretor de Comunicação do Instituto Reage Brasil (IRBRA)