
Roy agarra-se a uma pomba branca representação do espírito santo e da vida e fala calmamente "Eu vi coisas que vocês não acreditariam (...) Todos esses momentos se perderão no tempo como lágrimas na chuva. ...tempo de morrer" e solta a pomba que voa para um céu azul.
Blade Runner é uma história de um detetive mercenário, que se passa numa Los Angeles em 2019, transformada em uma caótica megalópole. O filme foi baseado no livro Do Androids Dream of Eletric Sheep de Phillip K. Dick, 1968. O lendário autor de ficção científica escreveu centenas de contos entre as décadas de 50 e 60, porém nunca foi bem sucedido comercialmente. Embora tenha falecido antes da conclusão do filme, o primeiro baseado em suas histórias, sua imaginação fértil inspirou gerações de escritores e diretores, levantando questões que permanecem atuais, como o reconheceu na história de Dick, um potencial cinematográfico para o romance futurista. Dez anos se passaram e Scorsese, com vários projetos em andamento, perdeu a oportunidade de trabalhar sua idéia e Brian Kelly adquiriu os direitos do livro que já despertara interesse de vários roteiristas. Michael Deeley assumiu a produção. O primeiro roteiro foi escrito por Hampton Francher e depois reescrito por David Peoples. Dois anos de intensas discussões foi o tempo que Hollywood levou para bancar o projeto ousado e caro. O diretor inglês Ridley Scott que havia chamado atenção com o filme Alien - O 80 passageiro, um mega sucesso, foi convidado a assumir a direção. Seria o seu 1º filme rodado em Hollywood. Scott era reconhecido na Europa como premiadíssimo diretor de filmes publicitários, seriados de TV e já havia dirigido 2 longas metragem( Seu 1º filme foi Os Duelistas, 1977). Resolveu encarar o desafio de filmar nos EUA. Algumas modificações foram feitas no roteiro original. O ano da história foi mudado de 1992 para 2019, para que se distanciasse mais da data atual.
Apesar do detetive ter sido baseado no personagem Philip Malowe do escritor Raymond Chandler, o termo detetive foi mudado para blade runner (caçador de andróide), inspirado no título de um livro de William Burroghs. Rick Deckard foi o nome dado ao detetive, digo, blade runner. O astro convidado para viver a personagem foi Harrison Ford. Ridley Scott viveu apaixonadamente o projeto. Sendo além de diretor, fotógrafo e diretor de arte, quis imprimir sua visão estética, com uma determinação que assustou até os produtores.
"...No excesso de identificação com o arquétipo do Criador, no enredo do romance futurista em questão, o homem tenta criar sua cópia para suprir suas faltas ( Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, Adão o homem, Gênesis 1.26-2.17), os andróides ou replicantes. Criaturas feitas pela engenharia genética para se tornarem escravos do homem nas colonizações de outros planetas. Quase perfeitos e criados para fins específicos, estes replicantes mesmo com apenas 4 anos de vida criam em si desejos e inquietudes típicas dos seres humanos e com aptidões, força física, raciocínio, inteligência superiores. Ingenuamente o projetista dessas criaturas, intuiu que não implantando memória histórica e afetiva ( consciência) no cérebro dessas "entidades orgânicas" seria mais fácil controlá-Ios. Foi um grande engano, pois o pensamento, a observação, a inteligência, fizeram aflorar emoções próprias e bastante humanas: ódio, amor, medo e inveja. Eles ansiavam a liberdade de viver e tinham efetivamente pouco a perder, já eram escravos. Houve então uma grande rebelião de replicantes. Eles tornaram-se uma ameaça aos humanos e foram banidos da Terra (como Adão e Eva foram expulsos do paraíso e viram-se forçados a uma nova auto percepção a fim de procurarem uma nova compreensão de si mesmos e sustentar-se por seus próprios esforços) para, um planeta colônia, Orion. Alguns permaneceram na Terra e foram caçados exaustivamente. A nossa história começa com a descoberta de 6 replicantes, modelo Nexus 6, que sequestram uma nave em Orion e voltam a Terra. Infiltrados nesta grande metrópole, surge em cena Rick Deckard, um caçador de andróides, mercenário que já havia se aposentado do ofício. Ele é intimado por Bryant ( M. Emmet Walsh), o chefe de polícia, que não Ihe dá nenhuma chance de recusa à missão. Fica bastante claro que Bryant o tem nas mãos, onde cria-se neste momento uma grande questão durante toda a história, Deckard era também um replicante
A essência da identidade é a memória e a memória se tem, com a história da vida. Era exatamente o que eles não tinham e queriam a qualquer custo, mais vida. Estas questões podem ser filosóficas, para qualquer ser humano: quanto tempo viverei, como viver com o medo e a certeza da finitude? Como viver com a angústia, sem defesas, sem auxílio, sem amparo, a espera de sabe-se lá o que? O que é a angustia, senão esse sentimento em nós, como ou sem razão, da possibilidade imediata do pior? O medo da morte. Não existe vida sem morte. Não existe vida sem angústia. Mas na vida há a possibilidade de tudo..."
Os replicantes também vão atrás das respostas. Mas pra eles existe um Criador de carne e osso que deve ter, hipoteticamente, uma resposta ou solução. Tyrel ( Joe Turkel) é esse personagem no filme. Deckard caça os andróides para eliminá-Ios e os andróides buscam mais vida, em busca de uma identificação.
Fonte: http://www.mitologica.com.br/joomla/index.php?option=com_content&task=view&id=76
Sonhar aos quarenta e seis do segundo tempo
A reflexão sobre Blade Runner, à posteriori, em data onde avanço no tempo e o tempo avança em mim. Um suposto poeta vive de detalhes, coisas aparentemente insignificantes deixadas pelos olhares humanos. Da série de Blade Runner, Solaris, Koyaanisqats e outros depois chamados "cults", mas quando passavam aqui, em Curitiba, fora do circuito cultural, nos cinemas, Ritz, Luz, Groff, as salas desertas. Sempre desertas. Além de mim, mais uns dois ou três. E naquela época eu já me perguntava: bom, não sei bem o que se fala de nós curitibanos...sobre sermos cultos. A exposição de Dali foi um fracasso aqui. Nossos governantes, invariavelmente, são uns tapados e apostam na maioria tapada para elegê-los. E els elegem, como de resto, em todo nosso país. Somos sumariamente subestimados. Bom, se vc começar a falar algo assim por aqui, um pouco diferente do senso comum, alguém vai bocejar na mesa, isso se deixarem falar, somos incômodos, pessimistas e por aí vai...Então, o nossa "música Axé", o nosso ópio, somos nós mesmos. Eu sempre considerei a humanidade muito burra, a começar pelo meu próprio exemplo (rsrs!). Ayrton Senna morreu na mesma data de Mário Quintana. Eu via no jornal televisivo a overdose de ufanismo sobre uma pessoa que se enfia num carro a 300 km por hora...e lá ao final, uma mensagem: "Morreu o poeta Mário Quintana". E um poema do sujeito. E querem que eu teça loas a uma humanidade dessa? Bom...temos que escolher nossos prazeres, colocá-los em patamares diferentes. Por exemplo: um corredor de biga em um pedestal maior do que um filósofo não teria razão na Grécia antiga. Evolução? E aí a gente comprava briga por isso, porque você não pode ser você, ter suas próprias idéias porque um bando de idiotas (e eles sempre andam em bando podem ter certeza!) não admitem que você não pense como eles. Que diga: não, eu não concordo, é um direito meu! Então você é sumariamente escorraçado porque é "contra o Brasil", é "ignorante" por pensar assim,patati,patata e tá, eu acho que a idéia de um cara que se enfia num carro a 300 Km por hora...gastando combustível fóssil, poluindo o planeta, colocando em risco a sua vida e a dos outros...sem nenhum motivo melhor do que chegar primeiro lugar...soa-me um tanto idiota. Podia fazer algo melhor de sua vida, se quer arriscá-la, como ir ao Haiti levar comida e água para os necessitados. E ficar aí enfiado em uma nave espacial, olhando a terra lá de cima. Uma vez na história tá bom, agora ficar lá enfiado seis meses, um ano. Pô! Não temos problemas suficientes aqui para serem resolvidos? Em uma época onde importaram o conceito momentâneo da física, aquele da "teoria da relatividade", para todas as áreas do conhecimento humano e das relações sociais, lá vem aquele sujeito na última fila afimando: "Isso é relativo! Você não pode impor sua opinião sobre os demais, não pode querer que todos tenham está opção!". E o cara, apoiado por todos, é o baluarte da democracia! UÉ! È Claro que não tenho a mínima pretensão de que todo mundo pense como eu...mas tenho o direito de poder dizer o que acho! E se acho que uma coisa é idiota...não quero nem saber se o resto do mundo acha ser a oitava maraviha do mundo. Mas não existe espaço para isso: é ao contrário! A sociedade não respeita quem não quer seguir o rebanho! São cruéis! Banem! Exílam...sem sequer imaginar que o exílio é ótimo para quem gosta de pensar e existir por seus próprios méritos e pensamentos. Quem exila quem?
Bom...Aí vieram com aquele papo repetido interminavelmente de que somos "exigentes". Acho que não somos exigentes porra nenhuma! Li o suicidado da sociedade de Antonin: ãs mesas dos bares, estábulos acadêmicos, rodinhas "sociais", de que somos o supra sumo cultural do Brasil, que quando lançam algum produto experimentam aqui, porque na verdade somos Artaud e Quintana em Party "vocês são feios e burros e não morrem nunca!", kakakak! O Humor é a vitória do ego sobre o princípio da realidade disse Freud. Esta cidade deixou-me doente, além da carga genética hereditária já propensa à. Bem sei que me faltam pedaços da memória mas sempre resta o sentimento profundo que de mim, muito roubaram: a família, o estado, a igreja, as ideologias, a cidade...e por aí vái! Mas de alguma forma, a busca pela vida, apesar de deixar marcas, tornou-me um sobrevivente, um herói ou sei lá o quê. Pelo menos assim imagino-me, afinal estou aqui e estou lutando e não desisti de mudar a mim mesmo e ao mundo, de alegrar a vida das pessoas...apesar de, no fundo, no fundo, considerar-me um grande chato, como todo bom curitibano. E daí? Tenho até medo do Face: parece que tenho aí uns 600 amigos. Ums sentimento estranho, ainda que virtual. Quem são eles? Kakakaka! Nunca me imaginei em patotas, em turmas, no máximo em algum grupo seleto de auto-idiotas que se suportam e aturam, pois vez ou outra verte uma centelha de genialidade. Mas agora, agora que aprendi a viver em mim mesmo, construir minhas próprias piadas, não esperar nada daqueles que me rodeiam e até aceitar a decepção de não ser o que de mim espero, ou que outros imaginam, eu é que não quero mais sair daqui. Conheci pessoas capazes de irem além de si mesmas e debruçarem seus olhares sobre os outros atentas, amáveis, doces, pacientes, inteligentes... as quais jamais imaginem existissem. Não muitos...mas algumas centenas as quais admiro. E devem exister milhares a mais, porque tudo está mudando e fico feliz em estar podendo ver isso. Aqui eu li, vivi uma vida solitária mesmo acompanhado, cometi erros, frequentei museus, teatros, cinemas, manicômios, médicos, praças, alambrados de futebol, intermináveis reuniões de partidos que não decidiram nada ou mudaram depois o que foi decidido nas reuniões, pessoas burras, egoístas, débeis mentais de toda espécia (Ah! Claro que sempre me incluo, né? Vício da ética protestante hereditária). A única diferença é que já não deixo mais que roubem um milímetro de minha vida...Permaneço ali, como sempre permaneci, observando o estranho gesticular, ouvindo de canto de ouvido as conversas chatas, fugindo dos conhecidos que não quero conhecer e até de mim mesmo, quando não me suporto.
Em meio a tudo isto, num caminhar por uma praia deserta, em frente a uma igreja, no dia do meu aniversário...lá está ela, uma pomba ladra beliscando um pedaço de Deus...e aí, ouvindo alguma música indígena norte-americana ou brasileira ou alguma outra de algum cantor ou cantora daqui e dali que ninguém conhece, um Raimundo Rolim, uma Eliane Bastos, um Sidail César, um Ronald Magalhães...surge uma felicidade estranha. Reluto em pegar a caneta e escrever algo. Rejeito minha suposta aptidão, como quem a considera um pecado, uma maldição...mas ela sempre me seduz ao final, a desgraçada. É estranho a arte oferecer-se a quem a rejeita e a felicidade não procurada...aparecer de repente.
Queridos amigos e amigas, não sei se os mereço e não sei se vocês merecem algo de mim. É bom que a dúvida permaneça, pois com ela permanece o respeito. Vamos supor que caso fosse algum deus...jamais deixaria que os homens tivessem certeza de que eu existisse. A certeza estraga tudo! O fóton...Ah! O fóton, aqui e ali, incerto por princípio: a matéria de qual todos somos feitos apesar de não fazermos a mínima idéia de como ela aparece e some. A dor de ser...que torna a vida alegre!
Mas que nos levaram um pedaço do enterno...nos levaram. Afinal, porque continuamos com esta sede de infinito?
Obrigado a todos vocês diferentes...que lutam por um mundo diferente, mesmo que não seja exatamente o qual imagino...e é bom que não seja.
O Roubo de Deus
Ao som da ladainha em latim
no alto da torre sacra
uma pomba beliscou
um pedaço de Deus
Com o além no bico
triscou o azul do céu
para beijar o filho
deixando o padre mudo
preenchendo o nada de tudo
Sangrando gotas eternas
um naco do infinito
ainda permanece no bico
Para quem duvida da vida
um milagre a cada manhã:
a dor de ser alegra o canto
mesmo que falte um pedaço
do eterno que nos levaram!
Shangri-Lá - Litoral Paranaense
31-01-2012



